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Modelos internacionais de combate à obesidade não são compatíveis com o Brasil

Modelos internacionais de combate à obesidade não são compatíveis com o Brasil

Medidas restritivas ao açúcar não consideram realidade cultural e econômica do país e podem causar efeito reverso

 

México, Dinamarca e Chile são exemplos de países que adotaram medidas restringindo o consumo de determinados ingredientes, como o açúcar, a fim de diminuir os índices de doenças crônicas da população. Embora os resultados de tais propostas se mostraram ineficazes e controversos, a discussão sobre implementar modelos taxativos e restritivos chegou ao cenário do brasileiro: o tema vem sendo abordado em recentes audiências públicas e painéis da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O debate, ainda em fase primária, cogita, por exemplo, usar a tributação de bebidas açucaradas para diminuir o consumo do açúcar e abaixar os índices alarmantes de obesidade e diabetes. Porém, conforme as Diretrizes da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO – 2016), doenças crônicas como essas são multifatoriais. Ou seja, dependem da alimentação, mas também de uma rotina de atividades físicas, boas noites de sono, questões genéticas e emocionais.

Além de ser isolada e incapaz de resolver o problema, a proposta não estabelece relação direta entre restrição e mudança de comportamento – na verdade, como explica a nutricionista Marcia Daskal, limitar ingredientes pode gerar problemas alimentares.

“A ciência já comprovou que o efeito é reverso; restrição gera compulsão. Em vez de taxar o que se considera nocivo, seria interessante estimular o consumo de alimentos que consideramos saudáveis. Estudos mostram que, equiparando preço, ou mudando o posicionamento (local físico, inclusive) destes alimentos em supermercados, lanchonetes e até em máquinas automáticas de alimentos, o consumo fica equivalente”, observa a especialista, complementando: “Quando restringimos, a primeira coisa em que pensamos é comer exatamente o que foi ‘excluído’. Entretanto, se trabalharmos com educação, é possível oferecer alternativas e poder de escolha para as pessoas”.

De que açúcar estamos falando?

Os países que adotaram medidas restritivas criaram seus modelos a partir de pesquisas feitas com o público alvo, baseando-se em seu padrão alimentar e estilo de vida. Porém, como destacado pela revista científica Nutrients, os mesmos estudos apresentaram definições não-padronizadas sobre os açúcares, ou seja, as recomendações de consumo foram arbitrárias e rigorosas – o que acabou por reduzir a ingestão de alimentos nutritivos, como iogurtes e cereais.

Neste caso, açúcar acabou se tornando um grupo holístico: qualquer substância que promove dulçor entrou para a categoria – como o açúcar de beterraba, de coco, demerara, cristal, mascavo, além dos melados e melaços. “Isto precisa ser salientado para o público, porque temos a impressão de que o nosso açúcar de cana é o causador de todos os malefícios. Porém, os açúcares comumente usados em outros países, que fizeram parte das pesquisas, envolvem componentes como frutose, xaropes e outros elementos sintéticos”, comenta Marcia Daskal.

Além de não existir uma definição de qual é a substância considerada nos estudos, não há considerações sobre a quantidade ingerida. “As pessoas acabam por ter a informação incompleta. O estudo pondera o açúcar e a quantidade consumida – que é abundante. Porém, o que chega ao público é que qualquer quantidade, de qualquer açúcar, causa problemas de saúde”.

 Consumo no Brasil

Como demonstrado no último Vigitel, levantamento divulgado em 2017 pelo Ministério da Saúde, as doenças que acometem os brasileiros deixaram de ser agudas e passaram a ser crônicas. Observou-se o aumento do sobrepeso em todas as faixas etárias. Interessantemente, o consumo de açúcares e bebidas açucaradas diminuiu significativamente e o brasileiro está comendo mais frutas e verduras.

Além deste declínio no consumo, o industrializado não é o responsável pela ainda grande ingestão de açúcar, isto é um mito. Conforme divulgado pela revista científica BMC Public Health (2016), a América Latina é a maior consumidora de açúcar adicionado, especialmente em infusões em chás e cafés. Ainda, se comparado ao consumo na França e no Japão, a região tem uma dieta com poucos carboidratos, gordura e açúcar, o que difere é que esses países têm índice de obesidade menor graças ao incentivo do exercício físico.

Ao mesmo tempo, mostrando que não devemos atribuir um problema de saúde a ingredientes específicos, uma pesquisa do Instituto Dante Pazzanese afirma que 70% das pessoas que fazem exercício físico e consomem açúcar estão com o peso em dia. “Não existe um modelo universal de restrição que possa ser aplicado em qualquer região do globo. Temos culturas e comensalidades distintas e, mesmo assim, o padrão da restrição tem sempre o mesmo resultado, que é a preocupação e a desinformação ao comer”, adiciona Marcia Daskal.

Então, seria viável usar outros países como exemplo?

 As pesquisas que avaliam os sistemas de restrição mostram que o impacto de reduzir o consumo é inicial. No médio a longo prazos esse consumo volta a se nivelar, principalmente porque as pessoas se adaptam e começam a comer de novo ou substituir por outros alimentos. De fato, a única informação concreta é que a educação é o caminho menos imediatista, mas o mais sólido e duradouro”, finaliza a nutricionista.

Antes de cortar ou eleger algum alimento como responsável pela obesidade, pensemos em engajar o público em relação à alimentação equilibrada e variada. Educar, em vez de persuadir, é combater a desinformação com fatos comprovados e dar autonomia para escolhas alimentares bem embasadas e responsáveis.



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